top of page
Buscar
  • Foto do escritorminasbioconsultoria

Farmácia da Natureza: A Descoberta e Desenvolvimento dos Fitofármacos


A utilização de diversas plantas no tratamento das mais variadas enfermidades é uma prática comum desde os tempos mais remotos, sendo tais conhecimentos culturalmente repassados até os dias atuais. Esse uso é bastante difundido tanto nos saberes populares e tradicionais quanto pela própria indústria farmacêutica, contando com cada vez mais estudos a respeito das propriedades medicinais presentes nas espécies vegetais, que resultaram na descoberta de substâncias hoje conhecidas como fitofármacos.



Fonte: Fonte: Escola de Educação Permanente - FMUSP

  • Fitofármacos x Fitoterápicos


Primeiramente, é importante esclarecer a diferença entre fitofármacos e medicamentos fitoterápicos. São chamadas de fitofármacos as substâncias isoladas e purificadas a partir de matéria-prima vegetal com uso farmacológico e que mantêm sua estrutura química, como por exemplo a morfina. Já os fitoterápicos são medicamentos produzidos a partir de um extrato de determinada planta, como por exemplo comprimidos de extrato de espinheira santa.



Fonte: Museu do Universo da Farmácia

  • Histórico


O uso de produtos naturais para fins medicinais é conhecido desde os primórdios da humanidade. Registros arqueológicos encontrados no Timor (Indonésia), datando de cerca de 13 mil anos a.C., indicavam uso de espécies vegetais psicoativas. Nas Américas, povos pré-colombianos como os Olmecas, Maias e Astecas, são reconhecidos por transmitirem os conhecimentos adquiridos sobre propriedades curativas de espécies a como quina (Chincona sp.) e a coca (Erythroxylum sp.) para as civilizações modernas.


Encontrado no Egito e datado de 1550 a.C., o Papiro de Ebers descreve aplicações médicas de plantas como a maconha (Cannabis sativa), a hena (Lawsonia inermis) e a babosa (Aloe vera). Já na Grécia Antiga, alguns filósofos podem ser destacados por seu papel nas descobertas relacionadas à botânica e a medicina, como Hipócrates, muitas vezes considerado o pai da medicina moderna, e Teofrasto, discípulo de Aristóteles que registrou a utilização da papoila-dormideira (Papaver somniferum), que tem a morfina como seu princípio ativo.



Papiro de Ebers - Fonte: Museu do Universo da Farmácia

Com o desenvolvimento da ciência e das tecnologias ao longo da história, estudos e pesquisas que buscavam entender como exatamente as plantas agiam contra as enfermidades foram sendo conduzidos. A partir do contato, em grande parte predatório e violento, dos colonizadores com as civilizações indígenas de diversas localidades do mundo, muitos conhecimentos sobre espécies botânicas curativas pertencentes a esses povos acabaram sendo difundidas na Europa.


Graças a isso, diversos avanços importantes foram feitos no campo da farmacêutica. Claude Bernard em 1856, a partir de descobertas e pesquisas realizadas por Schreber em 1783 e Boehm no século XIX, deduziu que as chamadas plantas curare (Strychnos sp. e Chondodendron sp.), utilizadas por indígenas em flechas para caça e pesca, agiam como bloqueador neuromuscular, o que deu início aos estudos sobre a relação entre estrutura química e atividade biológica dos compostos. Já na 2ª Guerra Mundial, tornou-se amplamente reconhecido o uso analgésico da morfina, isolada em 1804 por Armand Séquin do ópio, produzido a partir da papoila-dormideira, graças a invenção da seringa hipodérmica em 1853.


Em termos de história da Farmacologia, a descoberta dos salicilatos obtidos do salgueiro branco (Salix alba) é comumente considerada o marco mais importante no desenvolvimento de fármacos à base de plantas. As propriedades analgésicas da casca dos salgueiros já eram conhecidas desde 1757, graças às observações clínicas do reverendo Edward Stone, mas foi em 1828 que o farmacologista Johann A. Buchner conseguiu isolar uma pequena quantidade de salicina, o princípio ativo presente no salgueiro.


Já em 1960, Hermann Kolbe e seus alunos sintetizaram o ácido salicílico e posteriormente, em 1898, Felix Hofmann descobriu o ácido acetil-salicílico (AAS), que mantém as mesmas propriedades analgésicas do ácido salicílico, sendo menos ácido. A partir da descoberta de Hofmann, motivada pela sensibilidade de seu pai aos efeitos colaterais do salicilato de sódio, levou a Bayer a lançar o AAS no mercado em 1897, sob o nome de Aspirina. Ainda nos dias atuais, após mais de 100 anos de sua descoberta, o composto ainda é alvo de estudos devido às suas atuações como analgésico e antiinflamatório.



Fonte: Museu do Universo da Farmácia

Alguns exemplos de fitofármacos


Além da Aspirina e da morfina, existem outros diversos medicamentos sintetizados a partir de fitofármacos, sendo alguns dos mais conhecidos nos dias atuais:


  • Pilocarpina: extraído das folhas do jaborandi (Pilocarpus microphyllus), a pilocarpina é uma fitofármaco utilizado para o controle da pressão intraocular elevada, mais conhecida como glaucoma.


  • Digoxina: utilizada em medicamentos para o tratamento de insuficiência cardíaca, taquicardia, fibrilação atrial e arritmias, essa substância foi extraída e isolada da dedaleira grega (Digitalis lanata)


  • Flavonóide quercetina: isolado da faveira (Dimorphandra sp.), o flavonóide quercetina é comumente empregado no tratamento de varizes e hemorróidas.


Faveira - Fonte: Fabaceae - Leguminosae no Brasil


Dada a importância dos fitofármacos para a sociedade até os dias de hoje, torna-se evidente o quão necessário se faz a conservação da nossa biodiversidade florística para que, além da garantia da sobrevivência de espécies já conhecidas como fonte dessas substâncias, novos avanços e descobertas possam ser feitos no futuro.




REFERÊNCIAS:


ARGENDA, Scheila Crestanello et al. Plantas medicinais: Cultura Popular versus Ciência. Vivências: Revista Eletrônica de Extensão da URI , [s. l.], v. 7, n. 12, p. 51-60, maio/2021. Disponível em: https://www.ufpb.br/nephf/contents/documentos/artigos/fitoterapia/plantas-medicinais-cultural-popular-versus-ciencia.pdf/view. Acesso em: 5 nov. 2023.


BRANDÃO, Maria das Graças Lins. Plantas Medicinais e Fitoterápicos. Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais, 2009. 44 p. Disponível em: https://www.ufmg.br/mhnjb/ceplamt/wp-content/uploads/2014/02/Plantas-Medicinais-e-Fitoterpicos2009.pdf. Acesso em: 6 nov. 2023.


FERRAZ, Alexandre. Entenda a diferença entre Medicamentos Fitoterápicos e Fitofármacos. In: Hypericum. [S. l.], 25 nov. 2020. Disponível em: https://www.hypericum.com.br/post/medicamentos-fitoter%C3%A1pico-fitomedicamentos-e-medicamentos-sint%C3%A9ticos. Acesso em: 6 nov. 2023.


ROCHA, F. A. G. da; ARAÚJO, M. F. F. de; COSTA, N. D. L.; SILVA, R. P. da. O Uso Terapêutico da Flora na História Mundial. HOLOS, [S. l.], v. 1, p. 49–61, 2015. Disponível em: https://www2.ifrn.edu.br/ojs/index.php/HOLOS/article/view/2492 . Acesso em: 5 nov. 2023.


VIEGAS JR, Cláudio et al. Os produtos naturais e a química medicinal moderna. Química Nova, [S. l.], v. 29, n. 2, p. 326-337, mar/abr 2006. Disponível em: https://www.scielo.br/j/qn/a/gQqYVTzykDtcSVtKvYDxWTP/. Acesso em: 5 nov. 2023.






 

Sobre a autora: Thamara Eduarda Mineiro - Graduanda em Ciências Biológicas/Bacharelado na UFU, apaixonada por natureza, música e animes




Contato: thamara.minasbio@gmail.com



25 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

Comments


bottom of page