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CONHEÇA AS PLANTAS ALIMENTÍCIAS NÃO CONVENCIONAIS (PANCS)

O termo PANC foi criado em 2008 pelo Biólogo e Professor Valdely Ferreira Kinupp e refere-se a todas as plantas que possuem uma ou mais partes comestíveis, sendo elas espontâneas ou cultivadas, nativas ou exóticas que não estão incluídas em nosso cardápio cotidiano (KELEN, et al., 2015).

A grande maioria é denominada “ervas espontâneas” (BRASIL, 2010), pois se reproduzem mais facilmente, tolerando adversidades como a escassez de água, solo pobre e locais inóspitos, por exemplo.


Salada de Panc’s: mix de bertalha, begônia, ora-pro-nóbis, azedinha e alface-roxa. Imagem: Prazeres da Mesa.


As PANC’s, são adaptadas aos diferentes ambientes, nascendo sozinhas, buscam sua reinserção natural, e, além disso, essas plantas não precisam necessariamente ser cultivadas, e sim mantidas e manejadas de acordo com as condições de solo e interesse em sua manutenção e propagação. É importante ressaltar também que por nascerem em ambientes diversificados em organismos, interagem com os demais, mantendo a diversidade.

As Plantas Alimentícias não Convencionais, são plantas que poderiam fazer parte do nosso consumo diário. Porém, devido a falta de conhecimento por grande parte da população, muitas dessas plantas são caracterizadas como ervas daninhas, podendo ser facilmente encontradas na natureza e ignoradas.


Encontrar uma PANC é mais fácil do que se imagina


No Brasil existem pelo menos 3 mil espécies conhecidas de PANCs, estudos indicam que cerca de 10% da flora sejam de plantas alimentícias (KELEN et al., 2015).

Na literatura, há muitos estudos que provam a grande utilização dessas ervas por comunidades rurais, e estão presentes há séculos por comunidades tradicionais como ribeirinhos, indígenas, etc, que preservam o conhecimento acerca de seu cultivo e consumo, passando-o de geração a geração. No entanto, nos últimos anos tem mostrado reduzida expressão econômica e social, acarretando, assim, em uma menor diversidade de espécies consumidas.

O número de plantas consumidas por nós diminuiu consideravelmente nos últimos anos, estima-se que mais de 50% das calorias que consumimos provém de basicamente três espécies: arroz, trigo e milho, e quase 90% dos alimentos consumidos vem de somente 20 espécies de plantas. A eliminação das PANC’s do cardápio limita ainda mais a dieta das famílias.


As PANC’s e seus benefícios à saúde


É importante destacar o papel das PANC’s como alimentos funcionais em nosso organismo por meio de vitaminas essenciais, antioxidantes, fibras, sais minerais, importantes para regular as funções do corpo e protegê-lo contra vários tipos de doenças.


Além disso, o consumo dessas hortaliças traz alguns benefícios, como auxílio na saciedade, fornecendo poucas calorias, são leves e de fácil digestão, são ricos em fibras e auxiliam no bom funcionamento do intestino. Desse modo, a busca por uma vida saudável leva as pessoas a buscarem novas formas de alimentação tendo em vista sua funcionalidade e sustentabilidade.


Vizinhos se unem para cultivar PANC’s na horta urbana “City Lapa”, em São Paulo. Imagem: Hypeness.


Mesmo com todo esse cenário, algumas delas apresentam ainda, uma grande influência na culinária e alimentação regionais, como por exemplo, o jambu, muito utilizado no Amazonas e no Pará para o preparo do “pato no tucupi”.


Não existe uma lista fixa destas hortaliças, pois à medida que se vai conhecendo os costumes culinários mais interioranos do Brasil, uma nova espécie é acrescentada a esta relação. No entanto, pesquisamos algumas listas já existentes dessas plantas e trouxemos alguns exemplos e alguns de seus usos, que você pode conferir logo abaixo.

  • Almeirão-de-árvore (Lactuca canadensis): é usada como couve ou espinafre no preparo de pratos quentes ou saladas, pode ser preparado com feijão, arroz, angu e no recheio de tortas;

  • Araruta (Maranta arundinacea): uso tradicional em forma de polvilho extraído das raízes, o polvilho seco e peneirado é usado para bolos, biscoitos e mingau.

  • Azedinha (Rumex acetosa): as folhas frescas picadas podem ser utilizadas em saladas e sucos, as folhas refogadas também são usadas em sopas e molhos.

  • Peixinho (Stachys byzantina): suas folhas podem ser utilizadas no preparo de sucos, refogados, sopas, omeletes e recheios diversos. Quando preparadas à milanesa, tomam sabor de peixe.

Peixinho (Stachys byzantina) - Imagem: The Lost Book of Herbal Remedies, pag. 130.


Receitas utilizando as PANC’s


Ficou interessado? Selecionamos algumas receitas maravilhosas da Cartilha de Plantas Alimentícias não Convencionais para que conheça.


Charuto com Taioba (Xanthosoma sagittifolium):


Taioba (Xanthosoma sagittifolium)- Imagem: A taioba na culinária mineira (NetMercadão)


Descrição botânica: erva ou arbusto ereto, de rizomas tuberosos, de até 1,7m de altura. Pecíolo com mais ou menos 1m de comprimento, verde, inserido na superfície da folha. Folha peltada, oval-sagitada, com 40-50 cm de comprimento, com nervura coletora (linha circundante) e cor verde uniforme.


Propriedades: rizomas ricos em energia e fontes de carotenóides. Folha rica em fibras, cálcio, magnésio, Vitamina B2, B6 e C. A taioba pode ser utilizada contra febre, câncer, pólipo, inflamações e tumores, dentre outros fins fitoterápicos.


Parte comestível e usos: rizomas, talo e folhas. Os rizomas tuberosos podem ser consumidos cozidos ou moídos, em purês ou frituras. As folhas e talo também devem ser cozidos, pois crus apresentam o efeito tóxico do ácido oxálico. Pode-se usar em refogados, omeletes, ensopados e outros.


Ingredientes:

1 xícara (chá) de carne moída

1 xícara (chá) de arroz cozido

1 xícara (chá) de cenoura ralada

1 xícara (chá) de cebola picada

1 colher (sopa) de óleo ou azeite

Alho, sal, Salsa e cebolinha a gosto

Folhas novas de taioba


Preparo: amasse todos os ingredientes em uma bacia, enrole em formato de quibe. Lave bem as folhas de taioba, corte-as em tiras seguindo as linhas naturais. Envolva a massa com as tirinhas de taioba, formando os charutos e prenda com palitos. Coloque os charutos ordenados em uma panela. Coloque sobre os charutos o óleo ou azeite. Cubra os charutos com água e leve para cozinhar, até reduzir o caldo. Coloque o cheiro verde. Servir com salada de azedinha.

Charuto de Taioba com carne de sereno. Imagem: GloboPlay.


Salada de Begônia / Azedinha-do-Brejo (Begonia cucullata)


Begônia ou Azedinha do brejo (Begonia cucullata) - Imagem: NatureLoveYou.sg


Descrição Botânica: planta herbácea, ereta, suculenta e tenra. Flores ornamentais. Propriedades: é rica em ácido oxálico. Portadores de problemas renais devem evitar o consumo excessivo.


Parte Comestível e Usos: toda planta (folhas, ramos, flores e frutos jovens), tanto crus como cozidos. Suas flores podem ser fervidas com açúcar cristal até formar uma calda espessa, sendo utilizada como cobertura de sorvete ou ingrediente para drinks. Se apurada vira geléia. Suas folhas apresentam um sabor azedo muito característico e encantador, explicado pela presença do ácido oxálico nas suas células.


Preparo: Disponha as flores em uma saladeira e tempere com algum molho de sua preferência. Como esta espécie é bem azedinha, dispensa vinagre ou limão. Assim, como sugestão, pode-se fazer algum molho com mel, azeite e molho shoyu.


Pão com Ora-pro-nóbis (Pereskia aculeata)


Folhas e flores de ora-pro-nóbis (Pereskia aculeata) - Imagem: Folhas e Folhagens.


Descrição Botânica: cactácea perene de hábito apoiante e com folhas suculentas. Os ramos apresentam espinhos que aparecem em trio. As flores são de tamanho médio, brancas ou amareladas.


Propriedades: as folhas possuem cerca de 25% de proteínas (peso seco), das quais 85% acham-se numa forma digestível, facilmente aproveitável pelo organismo e muito indicada para dietas vegetarianas. Possui ainda vitaminas A, B e principalmente C, além de cálcio, fósforo e quantidade considerável de ferro, ajudando no combate a anemias.


Usos: come-se as folhas, frutos e flores, cruas ou cozidas. As folhas podem ser usadas em saladas, refogados, sopas, omeletes ou tortas, além de enriquecer pães, bolos, massas. Sua mucilagem pode substituir o ovo nas preparações. Os frutos podem ser usados para sucos, geleias, mousse e licor. As sementes podem ser germinadas para produzir brotos. As flores jovens podem ser usadas em saladas, salteadas puras ou com carnes e em omelete.


Ingredientes:

1kg de farinha integral

½ kg de farinha branca

1 colher rasa (sopa) de sal

2 colheres rasas (sopa) de açúcar

4 colheres (sopa) de óleo de milho (ou outro)

10g fermento biológico

1 ovo (dispensável para veganos)

300 ml água morna (em média, até dar o ponto da massa de pão)

Um punhado de folhas de ora-pro-nóbis gergelim, linhaça, gérmen de trigo a gosto


Preparo: misturar os ingredientes secos, inclusive o fermento. Acrescentar óleo, ovo e as folhas ora-pro-nóbis liquidificadas na água morna. Amassar bem até obter uma massa homogênea. Deixar descansar e crescer por cerca de 30 min. Amassar novamente e colocar nas formas, deixar crescer novamente e assar no forno em fogo médio por 40 minutos em média (depende do forno).

Pão de Ora-pro-nóbis (Pereskia aculeata) - Imagem: Amor pela comida.


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@minasbio



REFERÊNCIAS


KINUPP, Valdely Ferreira. Plantas Alimentícias Não-Convencionais (PANCs): uma Riqueza Negligenciada. Anais da 61ª Reunião Anual da SBPC , Manaus, 22 jun. 2009. Disponível em: https://grupos.moodle.ufsc.br/file.php/346/referencias/PANCS-uma-riqueza-negligenciada-artigo-Kinupp.pdf.


EMPRESA DE PESQUISA AGROPECUÁRIA DE MINAS GERAIS. EPAMIG. In: Cartilha Hortaliças não Convencionais. Minas Gerais, 4 ago. 2017. Disponível em: http://www.epamig.br/download/cartilha-hortalicas-nao-convencionais/. Acesso em: 23 nov. 2020.

EMPRESA BRASILEIRA DE PESQUISA AGROPECUÁRIA. EMBRAPA. In: Soluções tecnológicas: Sistema de produção de hortaliças não-convencionais (PANCs). Brasil, 2010. Disponível em: https://www.embrapa.br/busca-de-solucoes-tecnologicas/-/produto-servico/2613/sistema-de-producao-de-hortalicas-nao-convencionais-pancs. Acesso em: 23 nov. 2020.


LIBERATO, Pricila da Silva. PANCs - PLANTAS ALIMENTÍCIAS NÃO CONVENCIONAIS E SEUS BENEFÍCIOS NUTRICIONAIS., João Pessoa, PB, ano 2019, v. 2, n. 2, p. 102-111, 30 jun. 2019.


Jacob, Michelle Medeiros. “BIODIVERSIDADE DE PLANTAS ALIMENTÍCIAS NÃO CONVENCIONAIS EM UMA HORTA COMUNITÁRIA COM FINS EDUCATIVOS”. DEMETRA: Alimentação, Nutrição & Saúde , vol. 15, janeiro de 2020, p. e44037. DOI.org (Crossref) , doi: 10.12957 / demetra.2020.44037.


KELEN, Marília Elisa Becker, et al. PLANTAS ALIMENTÍCIAS NÃO CONVENCIONAIS (PANCs): HORTALIÇAS ESPONTÂNEAS E NATIVAS. 1. ed. Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2015. Disponível em: https://www.ufrgs.br/viveiroscomunitarios/wp-content/uploads/2015/11/Cartilha-15.11-online.pdf. Acesso em: 23 nov. 2020.


Sobre a autora: Ana Beatriz Sabino Menezes, graduanda em Ciências Biológicas/Bacharelado-UFU, gosta de pintar e desenhar, apaixonada pelo ramo artístico e também pela natureza e animais, passa a maior parte do dia no jardim, cuidando das suas plantinhas e do seu pedacinho de ecossistema.

Contato: sabinoanab@gmail.com @ardevenus


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