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Fungos que se alimentam de radiação: o poder da melanina

  • Foto do escritor: minasbioconsultoria
    minasbioconsultoria
  • 10 de set. de 2025
  • 3 min de leitura

Poucos pessoas sabem quem são os fungos, alguns até acreditam que são classificados como plantas, mas não é verdade. Plantas são autotróficas, produzem seu próprio alimento, enquanto os fungos são heterotróficos, degradam moléculas de nutrientes na natureza e as absorvem. Outra diferença está na presença de quitina na parede celular, igual à de alguns artrópodes, dando rigidez aos fungos e aproximando mais esse reino Fungi dos animais do que das plantas.

 

Quando pensamos em fungos, geralmente lembramos dos cogumelos na floresta, bolor ou do mofo no pão velho e nas frutas. O reino Fungi vai muito além disso, pois é um universo cheio de formas de vida bastante resistentes. Alguns fungos são tão adaptáveis que conseguem proliferar até em ambientes radioativos. É aí que entra o fascinante caso do fungo de Chernobyl.

Fonte: Foto de Pixabay
Fonte: Foto de Pixabay

Sabiam que existem fungos com a  capacidade de absorver radiação para seu  próprio uso? São os fungos melanizados radiotróficos, como o Cladosporium sphaerospermum, do filo Ascomycota. Naturalmente são saprofíticos, (alimentam de matéria orgânica em decomposição) mas são capazes de se alimentarem de radiação graças à melanina presente em suas paredes celulares, esse pigmento escuro funciona convertendo a radiação em energia e a transformando em energia química, em um processo parecido com a fotossíntese, porém usando radiação no lugar da luz.

 

Temos o famoso caso de Chernobyl, na Ucrânia. Nessa região, a quantidade de radiação é tão alta que torna o ambiente extremamente favorável para o crescimento de fungos radiotróficos, capazes de “limpar” a área. Estudos mostraram que fungos expostos a níveis elevados de radiação apresentam crescimento maior do que aqueles que não são expostos. A proliferação desses organismos foi vista tanto nas paredes do reator de Chernobyl quanto no solo ao redor.

Fonte: iNaturalist (Cladosporium exobasidii)
Fonte: iNaturalist (Cladosporium exobasidii)

Tudo isso pode ser graças à estrutura bastante presente nesses organismos: a melanina. Esse pigmento, nos fungos, pode variar do preto ao marrom, e até ao amarelo, a função é a proteção contra raios UV e solares, funcionando como um bioprotetor com grande potencial para conter a radiação. Existem testes sendo realizados com esses fungos para utilizá-los em estações espaciais, oferecendo proteção aos astronautas contra a radiação solar

 

Mesmo com essas vantagens para o ecossistema, ainda temos que avaliar várias problemáticas. E uma delas é dentro da saúde humana. Fungos melanizados, como Cladosporium sphaerospermum, podem causar alergia na pele e até problemas respiratórios para humanos. Será que a proliferação poderia, ao mesmo tempo, ajudar o planeta e prejudicar os seres humanos? É uma hipótese a ser levada e digna de uma história de ficção científica.

Fonte: iNaturalist, Claire Holden,2025. (CC) BY-NC (Cladosporium sphaerospermum)
Fonte: iNaturalist, Claire Holden,2025. (CC) BY-NC (Cladosporium sphaerospermum)

 

Casos como esse mostram como a natureza tem uma incrível capacidade de adaptação. Mesmo em ambientes altamente radioativos, fungos melanizados conseguem não apenas sobreviver, mas crescer e se desenvolver. O estudo dessa capacidade da melanina de absorver radiação pode trazer inovações científicas com grande potencial para a saúde, a exploração espacial e a proteção ambiental.

 

 



Referências: 

 

FRANÇA, Fernanda S.; LEITE, Samantha B. Micologia e virologia. Porto Alegre: SAGAH, 2019. E-book. p.127. ISBN 9788595026827. Disponível em: https://app.minhabiblioteca.com.br/reader/books/9788595026827/. Acesso em: 07 set. 2025.

 

MENEZES, Camilla Pinheiro; PEREZ, Ana Luiza Alves de Lima; OLIVEIRA, Edeltrudes Lima. Cladosporium spp: Morfologia, infecções e espécies patogênicas. Acta Brasiliensis , [Sl], v. 1, pág. 23 a 27 de janeiro. 2017. ISSN2526-4338. Disponível em: < http://revistas.ufcg.edu.br/actabra/index.php/actabra/article/view/6 >. Data de acesso: 08 set. 2025. doi: https://doi.org/10.22571/Actabra1120176 .

 

TIBOLLA, M. H.; FISCHER, J. Radiotrophic fungi and their use as bioremediation agents of areas affected by radiation and as protective agents. Research, Society and Development, [S. l.], v. 14, n. 1, p. e2514147965, 2025. DOI: 10.33448/rsd‑v14i1.47965. Disponível em: https://rsdjournal.org/rsd/article/view/47965. Acesso em: 7 set. 2025.

 

TRAVERS, Scott. This black fungus might be healing Chernobyl by drinking radiation — a biologist explains. Forbes, 2 nov. 2024. Disponível em: https://www.forbes.com/sites/scotttravers/2024/11/02/this-black-fungus-might-be-healing-chernobyl-by-drinking-radiation-a-biologist-explains/. Acesso em: 7 set. 2025.

 

DADACHOVA, Ekaterina; CASADEVALL, Arturo. Ionizing radiation: how fungi cope, adapt, and exploit with the help of melanin. Current Opinion in Microbiology, San Diego, v. 11, n. 6, p. 525–531, 2008. ISSN 1369-5274. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.mib.2008.09.013. Acesso em: 8 set. 2025.





Sobre o autor: Gabriel Lopes Martins, graduando em Ciências Biológicas - Licenciatura pela UFU, amante da microbiologia e ecologia, gosta de estar em contato com a natureza e jogar tarot.


 
 
 

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